Conto sobre "traição", de Robson Ferreira da Cunha
Em Mossâmedes, a “traição” não é deslealdade, mas um ato de solidariedade capaz de salvar lavouras e destinos sob a luz das lamparinas. Conheça a história de Bento e Rita, um amor proibido que encontrou na união secreta da comunidade a força necessária para florescer e vencer o rigor do passado.
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| Mutirão, desenho de Clóvis Madeira. |
Naquele tempo antigo, quando a zona rural de Mossâmedes ainda era chamada simplesmente de roça, a vida seguia outro compasso. O relógio era o sol, o calendário era a chuva, e a palavra dada valia mais que papel assinado. Nesse mundo de enxada, fé e vizinhança muito familiar, existia um costume forte e bonito chamado traição.
Traição, ali, não era deslealdade nem pecado. Era solidariedade em forma de surpresa. Quando uma família da agricultura familiar se via apertada — capina atrasada, plantio fora do tempo, colheita ameaçada pelo excesso de chuva ou pelo sol castigando demais — os vizinhos se reuniam em segredo. Combinavam tudo em cochicho, à luz de lamparina, e chegavam de madrugada, sem avisar o dono da roça. Ao clarear do dia, a lavoura já fervilhava de gente trabalhando em mutirão, de forma organizada, cada grupo sabendo exatamente o que fazer.
Foi nesse cenário que cresceu o amor de Bento e Rita.
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| Ilustração com imagens Vexels/Canva |
Moravam perto, separados por uma estrada de chão e por costumes ainda mais difíceis de atravessar. Desde pequenos se conheciam, mas sempre com distância. Quando ficaram moços, o sentimento apareceu forte, porém travado. Bento era calado e tímido; quando Rita se aproximava, o coração disparava, as mãos suavam, as pernas ficavam bambas. Rita não era diferente: o rosto esquentava, a voz falhava, o corpo inteiro denunciava o que ela tentava esconder.
Os pais não ajudavam em nada. O pai de Bento era homem duro, acostumado a mandar e a ser obedecido. Os irmãos, machistas e cheios de certezas, vigiavam o rapaz como se amor fosse sinal de fraqueza. Do outro lado, o pai de Rita era religioso severo, conservador, daqueles que confundem zelo com controle. Qualquer aproximação era vista com desconfiança. Os interesses das famílias não se alinhavam, e o namoro parecia proibido antes mesmo de começar.
As mães, porém, enxergavam longe.
Dona Alzira, mãe de Bento, percebia o jeito do filho quando Rita passava: o olhar perdido, a mão tremendo na aba do chapéu. Dona Lourdes, mãe de Rita, notava o cuidado exagerado da filha ao se arrumar para a missa, o sorriso que aparecia só de ouvir o nome do rapaz. As duas sabiam: aquilo era amor sofrido, amor que apertava o peito e dava dor.
E dor não faltava. Cada encontro na venda, cada troca rápida de olhar nas festas religiosas — do Divino, de São José e Festa de Reis — virava tormento. Nas missas, sentavam longe. Nos batizados e casamentos, mal se cumprimentavam. A repressão, o medo do falatório e o peso da autoridade dos pais transformavam o sentimento em angústia diária.
A vida na roça seguia, com seus dias bons e ruins. Teve ano de colheita farta e teve ano de perda. Teve festa de aniversário simples, com bolo feito em casa e café passado na hora. Teve também tristeza: um vizinho morreu num acidente de trabalho, esmagado por um tronco pesado. A comunidade parou, rezou junto, chorou junto. Na roça, a dor também é coletiva.
Havia ainda os negócios da produção rural: venda de arroz, feijão, mandioca, criação de porco e galinha. E, de tempos em tempos, a política chegava montada em caminhonete empoeirada. Candidato a vereador, a prefeito, prometendo estrada boa, escola, posto de saúde. Discursos feitos no terreiro, com aperto de mão e copo de cachaça depois.
Foi num desses tempos difíceis que a lavoura do pai de Bento atrasou. O mato tomou conta, e a chuva ameaçava estragar tudo. As mães se olharam e entenderam sem precisar falar: era hora de uma traição.
Na madrugada combinada, o povo chegou. Homem, mulher, jovem e velho. Enxada, foice, facão. Antes do sol nascer, a roça já estava em movimento. Teve discurso de começo, pedindo proteção a Deus, agradecendo a união e pedindo que ninguém se machucasse.
O trabalho foi pesado, mas logo virou riso. Um irmão valentão escorregou no barro e caiu sentado. Um vizinho apareceu com a camisa do avesso dizendo que dava sorte. A cachaça correu cedo, soltando língua e quebrando dureza. Bento e Rita, colocados lado a lado pelas mães, começaram tímidos, mas aos poucos o riso venceu o medo. No meio da bagunça organizada, trocaram palavras, depois um toque de mão, depois um beijo rápido escondido atrás do paiol. O coração ainda batia forte, mas agora era de alegria.
Na cozinha improvisada, o fogão de lenha não parava. Carne de porco no tacho, frango caipira, arroz branco, feijão grosso, macarronada, mandioca cozida, abóbora refogada. O cheiro tomava conta da roça. Depois do almoço, vieram os doces: de leite, de abóbora, de mamão. Café forte pra segurar o resto do dia.
Quando o serviço terminou, a lavoura estava salva. Teve discurso de encerramento, agradecimento e emocionado a Deus e aos participantes. O pai de Bento, com a voz embargada, falou da força da comunidade. O pai de Rita, calado, observava diferente.
Dias depois, o inevitável aconteceu: Bento enfrentou o pai. Tremendo, mas firme, falou do amor. Houve silêncio, discussão, palavra dura. Mas o tempo, a ajuda da comunidade e o respeito conquistado naquele mutirão amoleceram os corações. O namoro foi aceito aos poucos, sem festa grande, mas com consentimento.
O casamento veio mais tarde, simples, na igreja matriz de São José, com comida farta, sanfona, reza e alegria. A roça inteira participou.
E assim, como a traição salvava lavouras, também salvou aquele amor. Porque na roça de Mossâmedes, ninguém vive sozinho. Quando o mato aperta, a vizinhança chega. E quando o amor sofre, a comunidade dá um jeito de ajudar a florescer.
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| Robson Ferreira da Cunha é mossamedino, advogado, analista do seguro social, além de escritor. |



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