Do "gosto por música" ao amor pelo silêncio: O abuso sonoro que ignora o direito ao sossego em Trindade
Entre o meme do café e o som no "talo", como o barulho transforma em incômodo ouvir música: o silêncio é bom demais da conta e necessário também
O brasileiro é criativo por natureza, e as redes sociais são a prova disso. Dias atrás, viralizou um meme de alguém comentando que, ao retirar o açúcar do café, descobriu de imediato que não gostava de café, gostava, na verdade, era de açúcar. A piada é boa, mas me fez refletir sobre uma ironia parecida que tenho vivido na pele, nos ouvidos.
Durante boa parte da minha vida, sempre apreciei uma boa música. Cheguei ao ponto de cometer algumas composições e, com uma boa dose de audácia, gravar vídeos cantando e arranhando alguns acordes no violão. Eu tinha a absoluta certeza de que a música era uma das minhas grandes paixões. Isso até que a realidade de um bar barulhento batesse à minha porta. Ou melhor, invadisse a minha casa, numa total falta de respeito.
Bastou a abertura de um estabelecimento próximo, com música ao vivo e som nas alturas, para eu chegar a uma conclusão inevitável: o que eu gosto mesmo, acima de tudo, é de silêncio. Sem isolamento acústico adequado lá no bar, a sensação dentro da própria casa é de que a banda montou o palco na nossa sala de estar. O sossego, que deveria ser sagrado, vira refém de uma playlist repetitiva, cantada a plenos pulmões embalando os frequentadores majoritariamente com "modões" sertanejos.
É lógico, evidente e notório que não há nada contra o empreendedorismo ou quem deseja tomar "umas e outras" para descontrair. O lazer é legítimo; bar é um tipo de negócio muito comum em nossa terra. No entanto, há uma diferença abissal entre casa de shows estruturada e um bar ao ar livre com o som no "talo" operando no coração de um bairro eminentemente residencial. Quando a zoeira comercial atropela o direito ao descanso alheio, o tão necessário sossego público é que sai derrotado, por absoluta falta de respeito aos moradores da região.
O mais grave dessa situação é que o problema não decorre de falta de regras, mas talvez porque tem lei que pega e outras nem tanto. O Código de Posturas de Trindade em vigor é claro e categórico: para que qualquer estabelecimento comercial possa realizar shows, sejam eles ao vivo ou com som eletrônico, é obrigatória a instalação de isolamento acústico. A lei existe justamente para garantir que o direito de um não anule o direito do outro, a gente pensa.
Bar ao ar livre com poluição sonora em zona residencial simplesmente não deveria ter autorização para funcionar nesses moldes. Música alta de dia, à tarde, à noite, pode até ser uma boa pedida para quem está lá dentro do estabelecimento, compartilhando o que está rolando no ambiente. Fora dali ninguém é obrigado a ouvir a trilha sonora do dono do negócio. A fiscalização precisa ser mais atuante, rigorosa, para que o crescimento econômico e o entretenimento de Trindade não aconteçam às custas da saúde mental, do desassossego e da paz dos seus moradores.
E veja bem você onde chegamos com isso, internauta curioso. Talvez, seja bastante e suficiente que se observe o bom senso, evite barulho além do razoável, até mesmo porque ninguém é obrigado a ouvir a música que o outro quer, para se manter o equilíbrio da vida em sociedade. Quem sabe assim, este blogueiro que digitou essas linhas ainda possa continuar pensando que gosta de música mais do que tem estado preferindo o silêncio. Afinal, entre os acordes distorcidos que atravessam as minhas paredes e a paz de um ambiente calmo, não tenho dúvidas: fico com o silêncio. Que o digam algumas noites de sono perdidas e umas outras mal dormidas.

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