O que deixamos de nós

Uma reflexão para o Dia de Finados


Carlos Botelho refletindo sobre a finitude da vida. (Foto: Reprodução)


REFLEXÃO | Carlos Augusto de Oliveira Botelho é reitor da UniGoyazes


Um dia, todos nós partiremos. Deixaremos a casa, a terra, os caminhos, os objetos que guardamos e tudo aquilo que, por algum tempo, chamamos de nosso. Não levaremos as riquezas que acumulamos, os títulos que conquistamos, nem as coisas que tanto nos esforçamos para possuir.


Mas deixaremos muito de nós neste mundo. Deixaremos palavras que continuarão ecoando, conselhos que talvez só sejam compreendidos quando já não estivermos aqui. Deixaremos gestos de carinho, exemplos de coragem, sementes de esperança e marcas invisíveis nos corações daqueles que cruzaram nossos caminhos. Porque a verdadeira herança não é aquilo que guardamos, mas aquilo que compartilhamos.


Hoje, ao lembrarmos nossos antepassados, percebemos que somos muito mais do que imaginamos. Somos a continuidade de vidas que vieram antes de nós Carregamos em nossos olhos um pouco dos olhos deles, em nossas mãos a força de suas mãos, em nossas escolhas os ensinamentos que nos deixaram.


Quantos sonhos foram sonhados para que pudéssemos realizar os nossos? Quantas mãos trabalharam, quantas lágrimas caíram, quantas orações foram feitas para que hoje estivéssemos aqui? Nossos antepassados não desapareceram completamente. Continuam presentes na história que contamos, nos valores que cultivamos, nas tradições que preservamos e no amor que transmitimos às novas gerações.


A vida é como uma árvore. As raízes permanecem escondidas, mas são elas que sustentam o tronco, alimentam os galhos e permitem que novas flores desabrochem. Assim são aqueles que partiram. Já não podemos abraçá-los, mas continuamos sendo sustentados por muito do que nos deixaram. E um dia, também nós seremos raízes.


Outros caminharão por estradas que ajudamos a abrir. Outros colherão frutos de árvores que plantamos. Outros encontrarão esperança em palavras que talvez nem nos lembremos de ter pronunciado. Por isso, neste Dia de Finados, que a saudade não seja apenas a lembrança de uma ausência. Que seja também a celebração de uma existência. Que possamos agradecer aos que vieram antes, amar os que caminham conosco e cuidar daqueles que virão a seguir.


Pois, no final, não será importante quanto conseguimos levar desta vida. Será importante quanto de nós conseguimos deixar na vida dos outros. E talvez seja essa a mais bela forma de eternidade: Partir deste mundo sem levar nada, mas deixando amor suficiente para nunca desaparecer completamente.



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