Memória da Medicina: Lançamento de "As theses" resgata a trajetória dos primeiros médicos goianos

Obra dos escritores Rildo Bento e Jales Guedes será lançada no dia 19 de maio, com distribuição gratuita e coquetel na Associação Médica de Goiás, revelando os desafios da ciência no século XIX

Jales Guedes e Rildo Bento, autores de "As theses". (Foto: Divulgação)


No próximo dia 19 de maio (terça-feira), às 19h30, a capital goiana recebe um importante registro histórico com o lançamento do livro "As theses", de autoria do historiador Rildo Bento de Souza e do presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), Jales Guedes Coelho Mendonça.

O evento será realizado no Auditório Nabyh Salum (15º andar do Órion Business), na sede da Associação Médica de Goiás. A obra mergulha nas trajetórias de Thomaz Cardoso de Almeida e Theodoro Rodrigues de Moraes, os dois primeiros goianos a se diplomarem em medicina no Brasil, em 1839 e 1840, respectivamente.

A pesquisa faz parte de uma coleção iniciada em 2024 que visa catalogar e analisar os médicos goianos formados entre 1839 e 1930. Segundo Rildo Bento, o trabalho vai muito além da análise técnica das teses originais sobre gastrite e hérnia. “Nosso objetivo é, a partir das teses, compreender esses personagens que a escreveram, ou seja, desnudar um pouco a trajetória profissional e pessoal desses médicos”, explicou o autor em entrevista, destacando que ambos foram também militares que atuaram na Guerra do Paraguai.

O livro revela os desafios de uma época em que o ensino médico no Brasil era precário e baseado em literaturas estrangeiras. Para Rildo Bento, registrar essa história é fundamental para as novas gerações compreenderem que a evolução científica não é linear. Em uma forte reflexão sobre o cenário nacional, ele afirma: “Produzir ciência nesse país é e sempre foi um grande processo de resistência”. A obra explora como esses profissionais atuaram em um contexto onde a saúde pública ainda não era um direito institucionalizado.

Um dos grandes diferenciais do evento será a distribuição gratuita dos livros no momento do lançamento. Essa iniciativa de democratização do acesso à história foi possível graças ao patrocínio do Grupo Fértile, uma renomada clínica de Goiânia que se sensibilizou com a proposta cultural e educativa da coleção. Além do valor histórico, o livro conta com o prefácio do Dr. Waldemar Naves do Amaral, presidente da Academia Goiana de Medicina.

O lançamento é aberto ao público em geral e aos entusiastas da memória de Goiás. Após uma breve fala de recepção dos autores, haverá um momento dedicado aos autógrafos, acompanhado de um coquetel de confraternização para os presentes. “A nossa pretensão é exatamente essa, divulgar o livro em faculdades, bibliotecas e público em geral”, concluiu Rildo Bento. E tem muito mais na entrevista exclusiva a seguir. Imperdível!

Entrevista: Rildo Bento revela a trajetória dos primeiros médicos goianos

Em entrevista exclusiva, o historiador detalha a pesquisa por trás da obra "As theses", que resgata a memória da medicina no século XIX, explora a vida dos pioneiros que lutaram na Guerra do Paraguai e convida para o lançamento com distribuição gratuita na Associação Médica de Goiás.


Rildo Bento fala sobre a trajetória dos primeiros médicos goianos.


Blog - Como surgiu a ideia de pesquisar especificamente as teses de Thomaz de Almeida e Theodoro de Moraes? O que motivou vocês a trazerem esse tema a público agora?

Rildo Bento - Em primeiro lugar eu gostaria de agradecer imensamente este prestigiado espaço para comentar sobre o lançamento do nosso livro, que faz parte de uma coleção que começamos a desenvolver em 2024. O primeiro livro abordou as teses dos médicos/políticos Pedro Ludovico Teixeira e Brasil Caiado. A coleção visa analisar e apresentar os médicos goianos que se formaram no Brasil desde 1839, quando o primeiro se forma, até 1930. Nós já conseguimos catalogar dezenas de médicos e temos material para, pelo menos, mais 5 livros, cada livro apresentando as teses de dois médicos. Se o primeiro focava no século XX, o segundo livro recuou para a primeira metade do século XIX. Daí a ideia de focar nas trajetórias intelectuais/profissionais/pessoais dos dois primeiros: Thomaz Cardoso de Almeida e Theodoro Rodrigues de Moraes.

Blog - Como foi a parceria com Jales Guedes para a construção desta obra? Como vocês dividiram o trabalho de pesquisa e redação?

Rildo Bento - O dr. Jales Mendonça é um dos intelectuais mais dinâmicos que eu conheço. É uma pessoa extraordinária. É nosso presidente no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG); conseguiu revolucionar a administração daquele espaço cultural, e hoje é exemplo para o país. E nosso processo de pesquisa e escrita é de muito diálogo, companheirismo e respeito. É a base para qualquer projeto funcionar.

Blog - Quais foram os maiores desafios para encontrar e traduzir (ou interpretar) documentos de uma época em que o ensino médico no Brasil ainda estava em seus primeiros passos?

Rildo Bento - Realmente, o ensino médico no Brasil começou em 1808, e sempre de maneira muito precária. As primeiras instituições foram as faculdades de medicina de Salvador e do Rio de Janeiro. Não podemos considerar a medicina como uma ciência tal qual atualmente, ela tinha limites próprios do contexto. Os formandos poderiam defender uma tese, ou seja, um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), para terem direito a ostentar o título de doutor. Essas do século XIX, principalmente, eram teses mais filosóficas, que ainda traziam os médicos gregos como autoridade, tal qual Galeno e Hipócrates. Então, nosso objetivo é, a partir das teses, compreender esses personagens que a escreveram, ou seja, desnudar um pouco a trajetória profissional e pessoal desses médicos.

Blog - Quem foram Thomaz de Almeida e Theodoro de Moraes além da medicina? O livro explora o contexto social e familiar deles em Goiás?

Rildo Bento - Sim, o livro explora o contexto social e familiar deles. É impossível analisar somente com base na própria tese. Por isso, os arquivos históricos são muito importantes. Eu destaco e agradeço a parceria com o arquivo do Museu das Bandeiras e o arquivo Frei Simão Dorvi, ambos na cidade de Goiás, que nos receberam muito bem para que pudéssemos pesquisar. Thomaz e Theodoro foram médicos e militares que ascenderam na hierarquia do Exército. Participaram ativamente da Guerra do Paraguai. Thomaz Cardoso de Almeida (1807-1875) nasceu na cidade de Goiás, se formou no Rio de Janeiro em 1839 e após a formatura não voltou à sua terra natal. Percorreu esse país e atuou como médico em várias províncias. Já Theodoro Rodrigues de Moraes (1816-1897) nasceu em Jaraguá e também se formou no Rio de Janeiro um ano depois do Thomaz. De família muito rica e importante, retorna à Goiás e se insere politicamente, chegando a ocupar o cargo de presidente de província, atual governador, durante alguns períodos na segunda metade do século XIX.

Blog - Do que tratavam essas "theses"? Elas refletiam os problemas de saúde pública que Goiás e o Brasil enfrentavam naquele período?

Rildo Bento - As teses, diferentemente do que concebemos hoje como um trabalho acadêmico, são muito curtas, tem em torno de 15 páginas. É uma discussão mais teórica sobre algum assunto se valendo da literatura existente na época. A do Thomaz é sobre gastrite e a do Theodoro é sobre hérnia. Dois problemas de saúde que ainda persistem.

Blog - Na leitura das teses, vocês perceberam algo que pudesse ser considerado "avançado" para o século XIX ou elas seguiam estritamente os padrões europeus da época?

Rildo Bento - A maioria dos livros eram franceses ou alemães. Mas eles tinham acesso a essa literatura. A pesquisa para esses livros também nos leva a pensar a respeito da circulação do conhecimento científico. Não pude perceber nada avançado em relação a esses trabalhos, mas pude perceber o esforço que eles tiveram que empreender para fazer ciência nas primeiras décadas do século XIX.

Blog - Na sua visão, qual a importância de registrar a história dos primeiros médicos diplomados para as novas gerações de profissionais da saúde no estado?

Rildo Bento - Acho que não somente dos primeiros médicos, como no caso desse livro, mas dos médicos em geral desse período, para que possamos compreender que a história da ciência está a todo momento em completa evolução. Ao analisar essas trajetórias a gente perpassa o sistema de ensino, o que aprendiam, com quem aprendiam, as limitações, as dificuldades. Produzir ciência nesse país é e sempre foi um grande processo de resistência. E, por fim, fazer com que os próprios médicos conheçam a sua história e se inspirem ou não na trajetória desses colegas.

Blog - Como o fato de serem "os primeiros goianos diplomados no Brasil" influenciou a carreira deles e, consequentemente, a estruturação da medicina em nossa região?

Rildo Bento - O médico só vai ter um pouco mais de reconhecimento e importância após 1930, quando o ensino médico passa por uma revolução que inclui o avanço tecnológico da própria medicina. Antes, era muito no improviso, você tinha algum amparo médico nas maiores cidades, no interior do estado era muito mais complicado. As pessoas até preferiam recorrer a medicina popular, as benzições, às parteiras. São pouquíssimos médicos aqui em Goiás. Eles cobravam. Não tinha a institucionalização de uma saúde pública como direito do cidadão, como teremos com o SUS no final da década de 1980, após a redemocratização.

Blog - O material visual do lançamento menciona a distribuição gratuita. Qual o objetivo dessa iniciativa? Vocês pretendem levar o livro para faculdades e bibliotecas?

Rildo Bento - A nossa pretensão é exatamente essa, divulgar o livro em faculdades, bibliotecas e público em geral. A distribuição gratuita é parte dessa estratégia e nós tivemos a sorte de contar, tanto no primeiro livro quanto neste, com o patrocínio do Grupo Fértile, uma renomada clínica de Goiânia, que se sensibilizou com a nossa proposta. O prefácio é do Dr. Waldemar Naves do Amaral, presidente da Academia Goiana de Medicina, sócio da Academia Nacional de Medicina, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Blog - Quanto à expectativa para o lançamento, o que o público pode esperar do evento no Auditório Nabyh Salum no dia 19? Haverá algum debate ou momento de autógrafos específico?

Rildo Bento - O evento é aberto ao público em geral, principalmente aos entusiastas da história e da memória de Goiás. Teremos uma breve fala de recepção e depois o momento dos autógrafos. Enquanto isso as pessoas poderão se confraternizar durante o coquetel. Aguardo vocês!

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