Da primeira nomeação ao sucesso: O mapa para escalar na Perícia Judicial por Caio Azeredo

Com a bagagem de quem já ultrapassou 800 nomeações, o autor revela porque o comportamento estratégico vale mais que currículo acadêmico e ensina como transformar cada laudo em um "vendedor silencioso" do seu nome no Judiciário

Caio Azeredo: O primeiro ano do perito judicial. (Fotos: Divulgação)



A obra de Caio Azeredo, "O Primeiro Ano do Perito Judicial: Os princípios que transformam a primeira nomeação em uma carreira sólida", disponível AQUI na Amazon, apresenta um método prático para transformar a primeira nomeação em uma trajetória duradoura na perícia judicial. O autor argumenta que o conhecimento técnico é apenas o piso e que a verdadeira carreira nasce do compromisso com a excelência procedimental e comportamental. Um dos pilares fundamentais do livro é a desconstrução da ideia de que nomeações ocorrem por sorteio ou indicação; Azeredo as descreve como consequência direta do comportamento do profissional dentro dos autos. O livro mapeia o processo como um palco onde o perito é auditado continuamente pela secretaria e pelo juiz, que buscam alguém capaz de resolver o problema técnico sem gerar novos entraves processuais.


A estrutura do livro detalha oito atos repetitivos em qualquer processo, desde a chegada da intimação até o efetivo recebimento dos honorários, oferecendo um mapa para navegar no que o autor chama de país estrangeiro do Judiciário. Azeredo enfatiza que o laudo deve ser visto como um documento jurídico com conteúdo técnico, priorizando a legibilidade e a linguagem didática para que o magistrado possa utilizá-lo diretamente na sentença. A estratégia de crescimento proposta foca no plantio de reputação, onde cada trabalho entregue funciona como um vendedor silencioso que garante a recorrência e a construção de um ativo valioso: o seu nome no mercado.

Para atuar como Perito Judicial, a base indispensável é a graduação de nível superior em uma área específica e o registro ativo no respectivo conselho de classe, como ocorre com os economistas devidamente inscritos no CORECON. Embora certificações de especialidade sejam recomendadas pelas normas técnicas para evitar impugnações infundadas, a habilitação legal decorre primordialmente do diploma e da regularidade profissional, permitindo que o especialista atue em diversas frentes onde o conhecimento técnico seja necessário, como nas áreas trabalhista, previdenciária, tributária, financeira e de recuperação de empresas. Esse profissional funciona como um auxiliar de confiança do juízo, aplicando seu conhecimento científico para converter dados complexos em provas sólidas e colaborando em questões fáticas que fogem ao domínio puramente jurídico do magistrado.

O chamado para o trabalho ocorre por meio da nomeação feita pelo juiz, que seleciona o profissional a partir de cadastros mantidos pelos tribunais ou indicados pelos próprios conselhos de classe. Uma vez intimado e aceito o encargo, o perito inicia um planejamento rigoroso que envolve a análise detalhada dos autos, a realização de diligências e o exame técnico de documentos ou objetos para responder aos quesitos formulados pelas partes e pelo próprio juízo. O resultado final dessa colaboração técnica é a entrega do laudo pericial, um documento que deve apresentar as conclusões e as respectivas razões de forma didática e objetiva, servindo como a matéria-prima essencial para que o magistrado fundamente sua sentença com precisão e segurança jurídica.

Convidamos você para a leitura da entrevista exclusiva com Caio Azeredo, autor da obra O Primeiro Ano do Perito Judicial. Nesta conversa, o especialista revela como transformar o conhecimento técnico em uma carreira sólida e explica por que o comportamento do profissional dentro dos autos é o segredo para garantir novas nomeações. Confira as valiosas estratégias de quem já ultrapassou a marca de oitocentas nomeações e agora compartilha o mapa prático para o sucesso no ambiente judiciário. Vamos já à entrevista.

Entrevista: Como vencer a "Auditoria Invisível" e dominar os tribunais

Caio César Alves de Azeredo é contador, administrador, especialista em perícia contábil e tributária, desmascara o mito da fila de espera nos cadastros forenses e explica por que a inteligência comportamental e o uso de linguagem simples nos laudos são as chaves para conquistar a confiança dos juízes e garantir a recorrência de trabalho.

Caio Azeredo fala sobre o mito da fila nos cadastros forenses.


Blog - Você defende em sua obra que a nomeação judicial não é um sorteio, mas uma consequência. Como o perito iniciante pode sinalizar essa competência antes mesmo de entregar o seu primeiro laudo?
Caio Azeredo - Pelo comportamento, porque é isso que o juízo consegue ver antes de existir laudo. O cadastro te coloca no palco, mas não te dá o papel. Então escreva o cadastro na língua do processo: “contabilidade” não é especialidade, é diploma; “revisional de juros e encargos” é. Responda à intimação no prazo, apresente proposta fundamentada, e vá ao fórum se apresentar ao escrivão, bem-vestido, com um currículo de uma página. Cinco minutos de conversa respeitosa dão um rosto ao nome da tela.

Blog - No livro, você utiliza o termo auditoria invisível para descrever a rotina de uma vara. O que a secretaria realmente anota sobre o comportamento do perito que um currículo acadêmico não consegue mostrar?
Caio Azeredo - Comportamento. A vara lembra de quem respondeu no dia seguinte e de quem precisou ser intimado duas vezes; de quem entregou o laudo sem ser cobrado e de quem sumiu; de quem atende o telefone do cartório e de quem é um mistério entre uma intimação e outra. A cláusula mais invisível é a do cartório: o perito não pode gerar trabalho. E a devolutiva dessa auditoria é silenciosa, a próxima nomeação vem, ou não vem.

Blog - Existe uma diferença clara entre saber fazer uma perícia e saber construir uma carreira. Qual é o erro de percepção mais comum que faz profissionais competentes permanecerem invisíveis para o juízo?
Caio Azeredo - Achar que o cadastro é uma candidatura e que existe uma fila que anda sozinha. Quem pensa assim espera — e quando a primeira nomeação chega torta, distante e mal paga, recusa. O segundo erro vem junto: quando bate a insegurança, o profissional acha que precisa estudar mais. Mas “não sou nomeado”, “não sei quanto cobrar”, “tenho medo de perder prazo” não se resolvem com outra pós. São dores de navegação e rito, não de conteúdo técnico.

Blog - Você afirma categoricamente que o laudo é um documento jurídico com conteúdo técnico. Por que escrever pensando na sentença do juiz é mais eficaz do que tentar impressionar outros técnicos da área?
Caio Azeredo - Porque o colega técnico não despacha o processo. Para o juiz, o laudo é matéria-prima da sentença: se ele entende a conclusão, cita o fundamento e transcreve a resposta, o laudo cumpriu a função; se precisa de tradutor, não cumpriu. Meu teste é simples: se um trecho do laudo não funcionaria dentro de uma sentença, ele está escrito errado. E isso nem é gosto meu - o art. 473, §1º, manda o perito fundamentar em linguagem simples. Num caso grande, o juiz parou a decisão para elogiar meu laudo. Não elogiou a matemática: elogiou a linguagem didática e as conclusões objetivas.

Blog - Muitos profissionais iniciantes evitam os casos de justiça gratuita por causa dos valores modestos. De que forma essas nomeações funcionam como um estágio pago estratégico para quem deseja escalar na profissão?
Caio Azeredo - Porque entregam três coisas além do dinheiro: o treino do rito completo com risco baixo, o repertório da sua especialidade estudado com o processo na mesa, e ainda remunerado, e a presença na comarca. É a perícia que ninguém disputa, e por isso é a que apresenta o seu trabalho à vara sem risco para ninguém. No primeiro ano, o caso pequeno bem entregue é o anúncio mais eficiente que existe. Boa parte das minhas primeiras nomeações foi assim: valor de tabela, comarca que ninguém queria. Também há um outro ponto – este fora do livro (bônus para o BLOG): você não precisa aceitar da forma que veio, com valores que vieram. Há uma tabela do TJGO e nela é possível, de forma fundamentada pedir até 5x o valor mínimo da tabela. Se bem fundamentada quase sempre é acatado pelo juízo.

Blog - Na sua trajetória, por que você considera que a segunda nomeação é o verdadeiro veredito sobre a viabilidade da carreira de um perito?
Caio Azeredo - Porque a primeira pode ser acaso: um cadastro consultado na hora certa, um perito que declinou antes de você. A segunda não tem versão aleatória. Quando o mesmo juízo te chama de novo, alguém olhou para o que você entregou e decidiu repetir. Esse é o primeiro veredito real da carreira, dado pelo único tribunal que importa: quem já te viu trabalhar.

Blog - Quando chega o dia da diligência, o perito finalmente aparece em carne e osso diante das partes. Como a postura de anfitrião do contraditório pode blindar o trabalho contra ataques futuros?
Caio Azeredo - Aquele é o único dia em que você existe fisicamente para as partes, e meses depois todos vão ler seu laudo pela lente do que viram ali. Conduta é prova, e o take é único. Chegue antes, abra a sessão dizendo o objeto e o roteiro do dia: isso não é cerimônia, é o que impede a diligência de virar assembleia. Depois, equidistância cordial: mesma educação para os dois lados, mérito nunca a sós, nenhuma prévia de resultado, nenhuma cortesia material. E mostre o método ao assistente técnico, perito que esconde o jogo está confessando que o método não aguenta ser visto.

Blog - Sobre a proposta de honorários, você sugere que o número apresentado diz muito sobre quem o perito é. Como equilibrar a necessidade de cobrar o valor justo sem transparecer insegurança ou oportunismo?
Caio Azeredo - A diferença entre a proposta baixa, a inflada e a certa não é o valor, é o fundamento. Número solto é chute, e chute se impugna fácil; número demonstrado é orçamento, e orçamento se defende sozinho. Monte o quadro de horas etapa por etapa, module pela complexidade que os autos mostram em números e confira o precedente daquela comarca antes de propor. A régua final: o valor certo é o que você consegue defender linha a linha. Já orcei 270 horas num caso societário e o juiz arbitrou um quarto, e meu nome não ficou manchado, porque as 270 horas estavam demonstradas.

Blog - No capítulo sobre erros fatais, o atraso silencioso aparece como um grande vilão. Qual é o protocolo correto para o perito que percebe que o volume de trabalho superou sua previsão inicial?
Caio Azeredo - Prorrogação pedida antes do vencimento, com justificativa concreta. A lei permite conceder metade do prazo original. “O exame revelou 18 operações encadeadas, contra as 6 estimadas” convence; “acúmulo de trabalho” derrete. Pedida a tempo, é rotina administrativa que ninguém lembra depois; pedida depois, é desculpa, e desculpa fica na ficha. A distância entre as duas coisas é uma petição de meia página, protocolada uma semana antes.

Blog - As impugnações costumam gerar calafrios em quem está começando. Por que você defende que um laudo atacado com volume de páginas pode ser, na verdade, um atestado de que o perito decidiu a controvérsia?
Caio Azeredo - Eu já recebi 1.359 páginas de impugnação contra as minhas 24. Em vez de ler sofrendo, cataloguei: 85% eram reimpressão de peças que já estavam nos autos havia anos. A “prova nova” anunciada com alarde não existia. Volume não é argumento. E entenda o resto: a parte que perdeu pagou advogado e assistente técnico, o advogado precisa reagir. A impugnação não julga a qualidade do seu trabalho; ela é o preço de o seu trabalho ter decidido alguma coisa. Laudo que não dói em ninguém provavelmente não resolveu nada.

Blog - Você menciona que a reputação viaja com quem a testemunhou. De que maneira a promoção ou remoção de juízes entre comarcas ajudou a expandir sua carteira para mais de oitocentas nomeações?
Caio Azeredo - Juízes são promovidos e removidos o tempo todo, ainda mais no interior. Quando um juiz que já tinha testado meu trabalho assumia uma vara nova, ele precisava de perito e não conhecia os locais, nomeava quem já tinha testado. Meu nome entrava numa comarca onde eu nunca havia pisado. E o melhor: ficava lá depois que ele saía, porque a memória operacional é da secretaria, não do gabinete. Cada juiz que migrou me plantou numa comarca nova sem me arrancar da antiga.

Blog - Para encerrar, qual é o conselho de ouro para o profissional que está com o cadastro regular no conselho de classe, mas ainda vive a angústia do silêncio do tribunal?
Caio Azeredo - Primeiro, confira se você ainda está na vitrine. Certidões e credenciamento vencem sem que nenhum alarme toque, tem gente convencida de que está concorrendo e perdendo quando, na verdade, saiu da lista há um ano e meio. São dez minutos de conferência. Depois, quando a nomeação chegar, aceite a que ninguém quer. A minha demorou dez meses e era uma grafotécnica a quinhentos quilômetros, sem lucro nenhum, e foi ela que abriu tudo. E, enquanto o silêncio dura, troque a pergunta: “quando vão me nomear?” não depende de você; “estou pronto para responder em 24 horas quando vier?” depende inteira.

Comentários

Hosana Rodrigues disse…
👏👏👏👏👏
Que aula incrível!