Como o cuidado da saúde aos 40 anos pode melhorar a vida aos 70 anos?

Como a fábula da formiga e da cigarra explica a nossa velhice: o médico geriatra Arnaldo Paiva Neto revela por que as escolhas silenciosas aos 40 anos determinam se você chegará aos 70 com total independência ou dependendo do cuidado de terceiros

Arnaldo Guedes: Cuidado aos 40 para viver bem aos 70. (Foto: Divulgação)



ARTIGO | Arnaldo Pinto Guedes de Paiva Neto é médico geriatra e autor de “Palimpsesto: O corpo que se reescreve”, resultado de um trabalho que integra evidências científicas e reflexão teórica para compreender como a vida preserva informações apesar das constantes mudanças


A forma como se chega aos 70 anos pode ser comparada à fábula da formiga e da cigarra: a formiga representa quem se prepara para envelhecer; a cigarra, quem não se prepara e pode depender mais dos outros. O organismo funciona como um sistema aberto. Ele recebe matéria e energia do ambiente e as transforma, liberando calor e resíduos. É como uma casa que só permanece organizada porque coloca a desordem para fora.

Nesse processo, respirar também tem um custo biológico. O oxigênio participa da produção de energia e pode originar espécies reativas de oxigênio, entre elas os radicais livres. Quando ultrapassam as defesas e os mecanismos de reparo, contribuem para danos celulares. Entre as estruturas vulneráveis estão os telômeros, que protegem as extremidades dos cromossomos. Eles tendem a encurtar com as divisões celulares, e o estresse oxidativo pode acelerar esse processo.

A longevidade humana tem raízes na evolução, e a expectativa de vida aumentou com os avanços da medicina e da sociedade, que reduziram mortes precoces por infecções, traumas e doenças. O desafio é viver esses anos a mais com autonomia. Pior é chegar à dependência dos outros por algo que poderia ter sido evitado.

Hipertensão, diabetes, colesterol LDL elevado, triglicérides altos, obesidade, tabagismo e sedentarismo podem permanecer silenciosos enquanto aumentam o risco cardiovascular. O LDL elevado favorece a aterosclerose, que atinge as artérias, e elevam o risco de doença vascular cerebral, que pode contribuir para a demência vascular. Na meia-idade, também está associado a maior risco futuro de demência por doença de Alzheimer. Alterações vasculares podem coexistir com o Alzheimer e agravar o comprometimento cognitivo. Por isso, cuidar do colesterol aos 40 anos pode repercutir na saúde do cérebro aos 70 anos.

Outro patrimônio construído antes do envelhecimento é o músculo. O tecido muscular esquelético não se resume à estética: participa do metabolismo e funciona como importante reserva de proteínas e aminoácidos. Em períodos de doença e internação, o organismo “pede ajuda” ao músculo: aminoácidos liberados são utilizados para produzir proteínas de defesa e sustentar a atividade dos leucócitos, os “soldados” do organismo. Preservar a força muscular ajuda a manter a marcha, o equilíbrio, a capacidade de levantar-se e a independência.

A prevenção aos 40 inclui não fumar; evitar o excesso de álcool; praticar exercícios aeróbicos e de força; cuidar da alimentação, do sono e da saúde mental; tratar perdas auditivas e visuais; manter-se cognitivamente ativo e preservar vínculos sociais. Adoecer e perder autonomia não são consequências inevitáveis do envelhecimento.

Cuidar da saúde aos 40 anos não significa adiar a vida em nome dos 70 anos. Nas entrelinhas da fábula da formiga e da cigarra, fica uma lição que atravessa gerações: aproveitar o presente sem deixar de se preparar para o futuro, preservando o que mais importa, a independência para viver.

NOTA: Artigos publicados neste espaço trazem ideias e opiniões de quem os assinam e não do titular deste blog.


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