A mensagem matou o mensageiro
O dia em que a fumaça virou crime e o incêndio virou paisagem.
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| Marcelo Lopes falando sobre uma mensagem. (Foto: Divulgação) |
ARTIGO | Comendador Marcelo Lopes é empresário, psicanalista, maçom e rotariano.
Voltei de São Paulo pela BR-153 como quem atravessa um pensamento longo. Há estradas que servem apenas para ligar pontos no mapa. Outras, sem pedir licença, nos levam para o avesso de nós mesmos. Poucos quilômetros antes de Itumbiara, o trânsito estancou. O ar ficou espesso, cheirando a borracha queimada e óleo quente. Do outro lado da rodovia, um caminhão acabara de tombar. Passei devagar. Vi o motorista emergir dos estilhaços da cabine. Ferido. Tonto. Tentava caminhar, mas parecia que o corpo ainda não havia recebido a notícia do impacto. Arrastou-se pelo asfalto e desabou sentado junto ao próprio pneu.
Naquele instante, o acostamento começou a se encher. Meu primeiro pensamento foi aquele anestésico que usamos quando precisamos salvar a própria consciência: - Já tem gente suficiente para ajudar. E acelerei um pouco. Mas olhei novamente. Foi então que aconteceu o estalo. As pessoas não estavam correndo para o homem que sangrava. Estavam correndo para a carga. As caixas eram grandes. Pesadas. Um homem sozinho não conseguia carregá-las. Então outro se aproximava. Dois puxavam. Um terceiro abria caminho. Um quarto carregava. Havia sintonia. Organização. Esforço coletivo. Uma eficiência assustadora. Ali, entre fumaça, óleo e borracha, presenciei uma espécie de solidariedade perfeita. O problema é que toda aquela solidariedade estava a serviço do roubo. Faltavam mãos para levantar o corpo de um homem. Sobravam mãos para erguer mercadorias. As caixas haviam adquirido uma dignidade que o motorista perdera no segundo em que a lataria tocou o chão.
Continuei dirigindo. Mas o acostamento veio comigo. Durante quilômetros, aquela cena se repetiu dentro da minha cabeça. O motorista. As caixas. As mãos. Principalmente as mãos. Eu não havia assistido apenas a um saque de estrada. Tinha visto alguma coisa nossa escapar pela rachadura. Gostamos de dizer que somos civilizados. Erguemos prédios, escrevemos leis, criamos tribunais, frequentamos escolas, carregamos o conhecimento do mundo dentro do bolso. Mas às vezes basta um caminhão tombar. E alguma coisa muito antiga aparece.
A pergunta nunca foi se sabemos cooperar. Sabemos. Eu acabara de testemunhar isso. A pergunta é outra: em torno de quê somos capazes de nos unir? A barbárie também sabe trabalhar em equipe. Homens podem juntar forças para levantar alguém do chão. E podem usar exatamente as mesmas mãos para carregar aquilo que não lhes pertence. A cooperação é apenas uma ferramenta. O coração de quem a utiliza decide o que será construído com ela. Segui viagem. Em algum ponto da estrada, aquela cena começou a conversar com outras cenas que eu conhecia.
Alguém encontra fumaça. Aponta. - Há alguma coisa queimando ali. E, de repente, ninguém mais fala do incêndio. Começam a falar daquele que gritou. Quem é ele? Como descobriu? Por que falou? Por que falou agora? Quem lhe contou? Poderia ter falado de outra maneira? Tinha autorização para gritar? Em pouco tempo, o homem que apontou para a fumaça está cercado. E o incêndio... continua queimando.
É uma habilidade humana extraordinária. Quando uma verdade incomoda demais, nem sempre precisamos negá-la. Às vezes fazemos coisa mais sofisticada: mudamos de assunto. Já não discutimos o fogo. Discutimos quem gritou: - Fogo! Investigamos sua voz. Seu passado. Suas intenções. A maneira como conseguiu a informação. Se pronunciou a palavra correta. Se bateu na porta certa. Se deveria ter esperado.
A fumaça toma conta da sala, mas todos parecem aliviados porque finalmente descobriram que o alarme foi acionado de maneira inadequada. A verdade é um hóspede incômodo. Ela entra sem limpar os pés. Senta-se à mesa sem ser convidada. Faz perguntas enquanto ainda estamos comendo. E não demonstra nenhuma educação quando encontra uma mentira confortável ocupando sua cadeira. Quando não conseguimos expulsá-la, resta uma saída: conversar sobre outra coisa. E quanto mais importante é aquilo que não queremos enxergar, mais sofisticado precisa ser o assunto escolhido para substituí-lo.
Foi então que a estrada começou a me incomodar de verdade. Porque seria muito confortável terminar esta história apontando o dedo para aquelas pessoas no acostamento. Seria fácil. Eles saquearam. Eu não. Eles correram para as caixas. Eu não. Eles deixaram o homem ferido. E então meu próprio texto me interrompeu. Eu também estava naquela cena. Eu passei. Eu vi. Eu diminuí a velocidade. Eu calculei. E pensei: - Alguém vai ajudar. Depois segui viagem. Não carreguei nenhuma caixa. É verdade. Mas também não carreguei aquele homem. Essa parte da história é menos agradável de escrever. Porque existe uma distância confortável entre reconhecer a barbárie no outro e perceber que também sei olhar para o lado quando isso me convém. Talvez seja por isso que gostamos tanto de julgamentos. O banco dos réus é um excelente lugar... quando estamos sentados na plateia.
Naquela tarde, eu não roubei. Mas minha consciência também encontrou um jeito elegante de seguir viagem. “Já tem gente suficiente.” Uma frase. Só isso. Às vezes uma frase basta para absolver um homem diante do próprio espelho. O caminhão ficou para trás. A curva engoliu o acidente. A viagem terminou. Mas algumas cenas não obedecem às curvas. Continuaram dentro do carro comigo. O motorista sangrando. As caixas desaparecendo. As pessoas trabalhando juntas. E eu seguindo viagem.
Desde então, quando alguém aponta para um incêndio e vejo uma multidão se reunir para discutir quem acionou o alarme, volto à BR-153. Vejo novamente aquele homem sentado junto ao pneu. Vejo as caixas. E vejo aquelas mãos. Tantas mãos. Fortes. Rápidas. Organizadas. Todas ocupadas. Nenhuma nele. Então compreendo por que algumas mensagens se tornam tão perigosas. Não porque sejam falsas. Mas porque, se forem verdadeiras, alguma coisa terá de ser feita com aquilo que revelaram. E, algumas vezes, é muito mais confortável cercar o mensageiro. Questionar sua voz. Sua intenção. Seu passado. O modo como falou. Enquanto todos olham para ele... ninguém precisa olhar para trás. E atrás de todos nós, em silêncio, o caminhão continua sendo saqueado. A fumaça continua subindo. O incêndio vira paisagem. E nós continuamos discutindo quem gritou. E assim, todos os dias, a mensagem continua matando o mensageiro.

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