Quando o silêncio protege o agressor
Não basta curar as feridas, é preciso impedir o próximo golpe
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| Marcelo Lopes: Não é amor, é domínio. (Foto: SVCosta) |
REFLEXÃO | Comendador Marcelo Lopes é escritor, empresário, maçom e rotariano
Toda guerra tem uma verdade que incomoda. Não se vence conflito apenas recolhendo os caídos. Não se conquista paz apenas consolando os feridos. É preciso interromper o ataque. É preciso deter a mão que agride.
A violência contra a mulher é guerra. E estamos perdendo mães, perdendo filhas, perdendo irmãs.
Enquanto fazemos campanhas, palestras, acolhimentos o agressor continua. Ele calcula. Ele manipula. Ele isola. E nós… muitas vezes… silenciamos.
Curar hematomas não desarma punhos. Amparar lágrimas não neutraliza o próximo disparo. Existe uma mentira confortável que repetimos: “Ela deveria sair.” “Ela deveria denunciar.” “Ela aceita porque gosta.” Não é tão simples.
Existe cultura. Existe dependência financeira. Existe medo. Existe doutrina mal interpretada. Existe o preconceito que condena a mulher separada mais do que o homem violento. Ela faz contas enquanto esconde marcas. Ela calcula aluguel, pensão, escola, vergonha social. Ela mede o risco do amanhã. E ele volta com o roteiro pronto: “Eu te amo.” “Foi só dessa vez.” “Você me tirou do sério.”
Não é amor. É domínio.
O agressor escolhe mulheres vulneráveis. Ele afasta familiares. Ridiculariza amigos. Desconstrói autoestima. Cria dependência. Ele não quer companheira. Quer território. E precisamos dizer algo sem rodeios: Agressão é feio. Agressão é covardia. Agressão é crime.
E cultura se transforma. Mas cultura só muda quando todos se posicionam. Não basta proteger a vítima. É preciso confrontar o agressor. De homem para homem. Olho no olho. Sem violência. Mas sem conivência. Ele precisa saber que perdeu o respeito. Que perdeu o lugar. Que perdeu o aplauso. Porque a covardia prospera na tolerância.
E agora eu amarro todos num mesmo laço: Se uma mulher é agredida, não é problema dela. É problema nosso. Se uma mulher tem medo de voltar para casa, falhamos como sociedade. Se um agressor se sente confortável no convívio social, falhamos como homens. Nenhuma mulher está sozinha. Mas isso só será verdade quando nós formos presença real.
Quando a mesa do bar não rir da piada machista. Quando o amigo não passar pano. Quando o parente não disser “briga de casal não se mete”. Mete-se, sim. Porque quem se cala também sustenta. Primeiro se apaga o incêndio. Depois se tratam as queimaduras. Primeiro se interrompe o agressor. Depois se acolhe a vítima.
Se não houver enfrentamento, haverá funeral. E não é figura de linguagem. É estatística. Eu não quero mais contar mulheres mortas. Eu quero contar homens que mudaram. Homens que disseram: basta. Homens que se levantaram. Homens que não aceitaram dividir espaço com covardes. Porque homem que agride mulher não é forte. É fraco. É pequeno. É inseguro. É criminoso.
E a partir de agora precisa saber: Não terá admiração. Não terá cumplicidade. Não terá silêncio. Que cada homem de bem carregue isso como juramento: Se você tocar nela para ferir, vai encontrar todos nós. Não com ódio. Mas com lei. Com denúncia. Com isolamento social. Com responsabilização.
Agressão é feio. Agressão é covardia. Agressão é crime. E nós somos responsáveis por não permitir que continue. Não é discurso. É compromisso. Porque a paz que queremos começa no momento em que a covardia deixa de ser tolerada.
Nota: Artigos publicados neste espaço trazem ideias e opiniões de quem os assinam e não do titular deste blog.

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