Desenrola hoje, enrosca amanhã? O risco do endividamento recorrente.
Sem educação financeira, renegociações de dívidas podem ser apenas paliativos; entenda por que a mudança de comportamento é a única solução definitiva para sair da armadilha dos juros
![]() |
| Manoel Souza fala sobre o endividamento das famílias. (Foto: Divulgação) |
ARTIGO | Manoel Souza é Administrador, funcionário aposentado do Banco do Brasil, diretor da Associação dos Funcionários, Aposentados e Pensionistas do Banco do Brasil no Distrito Federal (AFABB-DF) e Conselheiro da Federação das Associações de Aposentados e Pensionistas do Banco do Brasil (FAABB)
A Medida Provisória n.º 1355/2026, editada em 4 de maio de 2026, instituiu o programa Novo Desenrola Brasil, focado na renegociação de dívidas de pessoas físicas com renda mensal de até cinco salários mínimos (R$ 8.105,00) que tenham débitos atrasados entre 90 dias e dois anos.
Entre os principais detalhes do Programa estão a possibilidade desconto de até 90% da dívida original, o uso de 20% do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para ajudar na amortização das dívidas (limitado a R$ 1.000,00, valendo o que for maior), a taxa de juros máxima de 1,99% ao mês e o prazo de até 4 anos para pagamento. Para aderir ao Novo Desenrola Brasil, o interessado deve concordar com o bloqueio do CPF em sites de apostas online pelo prazo de 12 meses.
Não restam dúvidas de que o Novo Desenrola Brasil traz benefícios imediatos para milhões de brasileiros que estão inadimplentes, com o nome negativado e enfrentando dificuldades financeiras. A última pesquisa do Serasa, referente ao mês de abril deste ano, apontou que 83,3 milhões de pessoas possuem dívidas em atraso, o que representa 50,81% da população adulta no país. A renegociação com as instituições financeiras, especialmente as relacionadas a cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal, permitirá a redução da pressão das cobranças, a limpeza do nome e a reorganização parcial das finanças pessoais e familiares.
No entanto, é importante lembrar que programas de renegociação, por si só, não resolvem a questão estrutural do endividamento das pessoas. Eles funcionam como um alívio momentâneo, mas não atacam a raiz do problema, que decorre da falta de conhecimento básico na gestão dos próprios recursos. Assim, a chance de continuidade no endividamento recorrente permanece alta para a maioria. Sem mudanças nos hábitos, muitos consumidores podem voltar rapidamente à situação anterior, pois o problema raramente está ligado apenas à falta de renda, mas à ausência de planejamento, ao consumo impulsivo e à inexistência de reserva para emergências.
A facilidade de acesso ao crédito, aliada à cultura do consumo imediato, faz com que muitas famílias assumam compromissos acima de sua capacidade de pagamento. Cartão de crédito, cheque especial, empréstimos pessoais e financiamentos acabam se tornando soluções frequentes para problemas cotidianos. O resultado é um ciclo perigoso: renegocia-se hoje para voltar a dever amanhã. Sem educação financeira, a repactuação dos débitos por meio do Programa Desenrola pode significar apenas um adiamento da crise.
O combate definitivo ao endividamento descontrolado depende, primordialmente, de uma mudança de comportamento financeiro da população. A verdadeira solução para esse grave problema passa pelo planejamento do orçamento doméstico, pelo controle consciente dos gastos, pela formação de reserva para emergências e pelo hábito de investir regularmente, ainda que com pequenos valores. Como bem ensinou o jornalista norte-americano George Lorimer: “O endividamento é como qualquer outra armadilha: fácil de entrar, mas difícil de sair”.
NOTA: Artigos publicados neste espaço trazem ideias e opiniões de quem os assinam e não do titular deste blog.

Comentários
Postar um comentário
Obrigado por comentar... Vamos analisar para publicar nos comentários.