Os caminhos da guerra

Quando o mundo se organiza antes do primeiro tiro

Marcelo Lopes falando sobre os caminhos da guerra. (Foto: Divulgação)


ARTIGO | Comendador Marcelo Lopes é empresário, escritor, psicanalista, maçom e rotariano

Há datas que não passam. Elas se infiltram na história como traumas coletivos. Em 7 de dezembro de 1941, o céu do Havaí foi rasgado por aviões japoneses. Pearl Harbor não foi apenas um ataque militar — foi uma ruptura simbólica do imaginário de segurança ocidental.

Na manhã seguinte, Franklin D. Roosevelt subiu ao Congresso e declarou: “December 7th, 1941 — a date which will live in infamy.” 7 de dezembro de 1941 — uma data que viverá na infâmia.

Naquele instante, o isolamento americano morreu. A neutralidade virou ilusão. O país mudou de pele. Mais de 2.400 jovens marinheiros morreram numa guerra que “não era deles”. Mas Pearl Harbor ensinou algo definitivo: a guerra não pede licença para atravessar oceanos.

A cultura da vigilância

A partir desse trauma, os Estados Unidos passaram a estruturar uma cultura de alerta permanente. Não romantizam a guerra, mas tampouco toleram surpresa. Indústria, ciência e logística se tornaram extensões do sistema de defesa. Nasceu o princípio tácito: “If you want peace, prepare for war.” Se queres paz, prepara-te para a guerra. A guerra, para os EUA, é vista como falha do mundo — mas quando ocorre, precisa ser decisiva. O gigante não só acordou, caiu numa profunda insônia - nunca mais dormiu.

Pensamentos de guerras

A Rússia enxerga a guerra como continuação da existência do Estado. O sacrifício humano é aceitável. Sua doutrina ecoa a máxima atribuída a Stálin: “A morte de um homem é uma tragédia; a de milhões é estatística.” Já a China pensa a guerra como processo invisível. Sun Tzu ensinava: “A suprema arte da guerra é subjugar o inimigo sem lutar.” Economia, tecnologia e dependência global tornaram-se armas tão poderosas quanto tanques.

Alianças que não são ideológicas

Quando se fala em eixo euro-asiático, não se fala apenas de Rússia e China. Fala-se de uma constelação de satélites estratégicos como Irã, Coreia do Norte, Belarus, Síria, Venezuela e Cuba. Não são alianças de afinidade, mas rotas de sobrevivência geopolítica.

Desde a guerra na Ucrânia, sanções econômicas, bloqueios financeiros e restrições energéticas minaram a capacidade russa. Sem recursos, nenhuma guerra se sustenta por muito tempo. Venezuela, com suas reservas, e Cuba, com sua posição geográfica, tornaram-se corredores simbólicos e logísticos. Impedir a presença do adversário nessas regiões é parte do tabuleiro invisível.

Quando o fim do mundo é automatizado

O sistema russo Perimetr, conhecido no Ocidente como Dead Hand — Mão Morta — é a mais extrema expressão da dissuasão nuclear. Caso sensores detectem ataque em massa e o comando desapareça, o sistema lança automaticamente mísseis intercontinentais. É a lógica do apocalipse automático: Mesmo mortos, responderemos. Não serve para vencer — serve para impedir que alguém ouse iniciar.

O Trampolim da Vitória: do Nordeste à Groenlândia

Na Segunda Guerra, Natal, Recife e Fernando de Noronha tornaram-se o Trampolim da Vitória. Dali partiam aviões, suprimentos e decisões que encurtaram oceanos e definiram o conflito. Hoje, o trampolim mudou de latitude. A Groenlândia ocupa o centro silencioso do novo mapa estratégico. Ela não é o ponto mais próximo de tudo — ela está no caminho.

Distâncias aproximadas (linha reta)
Tomando o norte da Groenlândia (região de Pituffik/Thule) como referência:
Groenlândia → Europa (Escandinávia/Islândia): ~1.500 a 2.000 km
Groenlândia → Rússia (Sibéria/Ártico): ~2.700 a 3.000 km
Groenlândia → Estados Unidos (Alasca/norte continental): ~3.000 a 3.500 km

A Europa é fisicamente mais próxima da Groenlândia do que a Rússia. Mas os mísseis entre Rússia e Estados Unidos seguem a rota mais curta sobre o Polo Norte, e esse corredor passa por cima da Groenlândia. É por isso que ela é decisiva. Quem controla a Groenlândia: vê antes, responde antes, intercepta antes. Ela não protege fronteiras. Ela protege segundos. E, na guerra moderna, segundos decidem civilizações.

Europa: limitada sem o gigante

A Europa se prepara para um conflito que não deseja. Mas, sozinha, diante da Rússia e da China, é limitada. O apoio americano continua sendo o fator decisivo. A presença dos EUA na Groenlândia encurta o tempo de resposta e amplia a proteção do continente. Na Primeira e na Segunda Guerra, os Estados Unidos demoraram a entrar. Hoje, numa guerra hipersônica, demorar pode ser a ruína de todos.

Caminhos invisíveis

Venezuela, Cuba, Groenlândia, rotas do Ártico, Ucrânia, Síria, iram, bases esquecidas. Ataques, demonstrações de poder, estratégias militares, bloqueio, sanções, sistema de defesa, ataques surpresa, tecnologia bélica… Nada disso é aleatório. Guerras modernas não são vencidas por bravura, mas por logística, visão e velocidade. Ganha quem chega primeiro aos pontos de observação, controla rotas e encurta distâncias. O resto é discurso.

O aviso final

Aliados americanos formam um eixo de contenção: Reino Unido, Canadá, Austrália, Israel, Japão, Coreia do Sul e Taiwan. Do outro lado, Rússia, China, Irã, Coreia do Norte e seus satélites. A grande guerra talvez não tenha começado nos livros. Mas, para muitos estrategistas, ela já está em curso. O mundo não caminha para o conflito. Ele já se organiza para a intensificação dele. E quando os mapas se completarem, ninguém poderá dizer que não foi avisado.

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