O Globo que não para de girar
Uma crônica poética sobre atrito, permanência e o lento polimento da alma
ARTIGO | Comendador Marcelo Lopes é escritor, empresário, maçom e rotariano
Eu me lembro bem do dia. Não foi um dia épico. Foi um dia de poeira, papel assinado, graxa suja e uma intuição sem manual.
Duas betoneiras gigantes. Duas. Compradas no interior de Goiás.
Uma operação que parecia exagerada para quem olhava de fora, mas absolutamente necessária para quem sabia que certas coisas grandes não se movem sozinhas.
Foram guindastes, carretas especiais, batedores bem posicionados, e dois técnicos em eletricidade acompanhando o trajeto, porque em alguns pontos foi preciso erguer a fiação, como quem pede licença ao céu para permitir a passagem do que não cabe na rotina da cidade.
À primeira vista, lembravam betoneiras de obra. O mesmo desenho. A mesma lógica. Mas em uma escala quase insolente. Motores de 50 kW, capazes de girar cerca de cinco metros cúbicos por ciclo. Máquinas que não nasceram para misturar cimento, mas para suportar desgaste.
E algo me chamou a atenção: todo o interior era revestido em manganês. Não por estética. Não por luxo.
O manganês puro não é “mais forte” que o ferro puro no sentido clássico de resistência estrutural. Mas ele possui uma característica decisiva: quanto mais impacto recebe, mais resistente se torna.
Diferente do aço carbono, que se desgasta e trinca, o manganês endurece sob agressão. Ele não evita o atrito. Ele aprende com ele. Aquilo me marcou.
Naquele momento, eu ainda não sabia exatamente para quem vender aquelas máquinas. Comprei antes de compreender. Como acontece com quase tudo que, mais tarde, se revela essencial.
Pesquisei. Descobri. E o sentido apareceu.
Aquelas betoneiras eram usadas no polimento de pedras ornamentais: quartzo, seixos rolados, basalto, dolomita, mármore bruto. Pedras irregulares, trincadas, assimétricas, cheias de excessos e faltas. Pedras longe do brilho nobre das joias, mas perfeitas para caminhos, jardins e paisagens vivas. Pedras que não precisavam ser impecáveis. Precisavam apenas ganhar forma.
Elas eram lançadas naquele grande tambor metálico. Cinco metros cúbicos de imperfeição por vez. E o tambor girava.
As pedras se chocavam. Se pressionavam. Se feriam. Algumas se partiam. Outras perdiam arestas que machucavam ao toque. Era ruído. Era poeira. Era violência sem intenção. Mas algo acontecia ali dentro.
Cada impacto retirava um excesso. Cada contato arredondava uma rigidez. Cada hora em movimento transformava falha em contorno.
Não saíam dali como obras raras. Mas emergiam harmônicas, prontas para compor paisagens que encantam justamente por não fingirem perfeição. E então eu entendi.
A humanidade é um grande tambor em rotação constante. Gira com choque, com conflito, com barulho. Gira mesmo quando insistimos em acreditar que tudo está sob controle.
E tudo o que construímos — lojas, templos, oficinas, associações, fraternidades — são tentativas humanas de organizar o impacto, de dar sentido ao confronto, de impedir que o atrito nos destrua por completo.
São espaços onde o conflito vira aprendizado, onde o choque ganha linguagem, onde o sofrimento não é desperdiçado.
Somos, todos nós, pedras brutas que aceitaram não saltar para fora do tambor quando o giro apertou.
Pedras que escolheram permanecer. Que aceitaram se reunir num mesmo espaço, sabendo que ali não haveria perfeição - apenas pessoas imperfeitas tentando não se despedaçar.
Um conjunto de diferenças. De histórias que não se encaixam de imediato. De arestas que aprendem, com o tempo, a não ferir. E ainda assim… um sorriso.
Porque aprendemos que o polimento não nasce da fuga, mas da convivência. Que a beleza não vem da ausência de conflito, mas da capacidade de resistir juntos. Quanto mais o tambor gira, mais forma
vamos ganhando. Desde que resistamos. Desde que não desistamos. Desde que não saltemos fora no primeiro impacto mais duro.
O manganês me ensinou isso. Ele não é superior porque evita o desgaste, mas porque se fortalece dentro dele.
E talvez esse seja o segredo de qualquer instituição que deseje durar: não eliminar o conflito, mas criar estrutura para atravessá-lo sem se quebrar.
Hoje, quando penso naquelas betoneiras, não vejo máquinas. Vejo pessoas. Vejo histórias. Vejo comunidades inteiras girando, errando, aprendendo. Porque compreendi que não é o brilho raro que sustenta o mundo. É o jardim.
E o jardim só existe porque algumas pedras aceitaram girar até doer, sem perder a essência, sem abandonar o movimento, sem desistir de se tornar melhores do que eram quando entraram.
E isso, no fim das contas, serve para qualquer fraternidade, para toda comunidade humana, para todo grupo que ainda acredita que vale a pena permanecer quando o mundo aperta.
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