Educação para poucos é o avesso de si

As questões que surgem precisam ser tomadas e respondidas localmente nos países, nas escolas, nos programas e nos sistemas educacionais

Danilo Costa, articulista. (Foto: Divulgação)


Intitulado “Reimagining our futures together: A new social contract for education”, um estudo recente da Unesco é categórico logo nas primeiras páginas: “Nossa humanidade e Planeta Terra estão sob ameaça”. O texto ainda segue com algo óbvio aos nossos olhos, porém necessário de ser registrado: “A pandemia apenas provou nossa fragilidade e nossa falta de interconexão”.

O documento em questão destaca quão crucial é expandir as oportunidades educacionais, bem como o estabelecimento de um novo Contrato Social que beneficie todas as crianças e os jovens. O protagonismo da Unesco na promoção de uma educação de qualidade para todos não é de hoje. Não por acaso, o Dia Mundial da Educação – celebrado globalmente em 28 de abril – só foi instituído após a realização do Fórum Mundial da Educação, que aconteceu no Senegal, em 2000.

Nós, profissionais dessa área, temos sempre que pensar à frente. Como prever nossa realidade em 2050, considerando que temos um mundo cheio de desigualdades a serem corrigidas? Esse documento da instituição, preparado por uma comissão chefiada pela presidente da Etiópia, Sahle-Work Zewde, propõe a elaboração desse novo Contrato Social, mencionado anteriormente. Com isso, a sociedade pode atuar por benefícios comuns, como o acesso à educação de qualidade por toda a vida e fortalecimento do ensino como um bem comum.

Mais do que uma meta cravada na pedra, o relatório funciona como um convite para pensar e não necessariamente um projeto. Há inúmeros pontos – e falaremos deles a seguir – que podem ser considerados regionalmente em cada nação, escola ou metodologia de aprendizagem. Nada deve ser empregado no formato de cima para baixo, tudo deve ser relativizado e contextualizado.

Segundo a publicação, ao longo do século 20, a educação visava, essencialmente, apoiar esforços de cidadania e desenvolvimento por meio da escolaridade obrigatória para crianças e jovens. Mas isso mudou – e acho que todos concordamos a respeito. Atualmente, enfrentamos graves riscos para o futuro da humanidade e do próprio planeta vivo. Com a pandemia, só pude notar que tivemos um despertador tocando bem alto, como quem brada: “Acorde rápido”. Pensei que 2022 começaria mais otimista e altruísta, entretanto, fomos surpreendidos por uma guerra no leste europeu. É preciso melhorar. O ser humano ainda tem muito que ser polido e lapidado.

Sob uma perspectiva pedagógica, deve-se reinventar urgentemente a educação para nos ajudar a enfrentar desafios comuns. O novo contrato da sociedade deve nos unir em torno de esforços coletivos e fornecer o conhecimento e a inovação necessária para moldar futuros sustentáveis e pacíficos para todos ancorados em questões sociais, econômicas e justiça ambiental. Deve-se defender o papel desempenhado pelos professores. De acordo com o estudo da Unesco, há três perguntas essenciais a serem feitas à educação ao olharmos para 2050: O que devemos continuar fazendo? O que devemos abandonar? O que precisa ser inventado criativamente de novo?

As questões que surgem precisam ser tomadas e respondidas localmente nos países, nas escolas, nos programas e nos sistemas educacionais. Há nações que iniciaram projetos elaborados de sustentabilidade – dentro e fora das salas de aula. Há outras que vivem diariamente ameaças constantes, sejam de guerra ou de queda da democracia. Precisa-se avaliar com uma lupa cada realidade isoladamente e propor ações contínuas e estruturadas. Existe, entretanto, um denominador comum: grupos socialmente privilegiados continuam tendo acesso à qualidade superior. O novo olhar educacional deve pensar em inclusão como ponto de partida. Como bem adiantei no título, uma educação para poucos é o oposto de si.

As escolas devem ser locais educacionais protegidos por causa da inclusão, equidade e bem-estar individual e coletivo que apoiam, também reimaginados para melhor promover a transformação do mundo para uma direção mais justa, equitativa e um futuro sustentável. Devemos aproveitar e ampliar as oportunidades educacionais que ocorrem ao longo da vida e em diferentes espaços culturais e sociais. É preciso polir essa pedra preciosa constantemente, deixando para trás os resíduos e aprimorando sua parte valiosa.


Danilo Costa é ex-mantenedor escolar, advogado formado pela FGV-SP e fundador do Educbank, principal ecossistema financeiro dedicado às escolas brasileiras.


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